quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Linda Hutchceon

Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção, Linda Hutcheon



Sobre o Pós-Modernismo


Definição

Linda Hutcheon define a pós-modernidade como uma “metaficção historiográfica”, que teria características peculiares, tais como:

* Auto-referencialidade
* Paródia histórica
* Ausência de dialética
* Descontinuidade
* Desmembramento
* Deslocamento
* Descentralização
* Indeterminação
* Antitotalização


Origem

Arquitetura

* As contradições entre o auto-reflexivo e o histórico já apareciam em Shakespeare e Cervantes, mas o pós-modernismo acrescentou-lhes uma constante ironia.



1. A problematização da História pelo pós-modernismo

O pós-moderno não é anistórico, nem desistoricizado, mas questiona os nossos pressupostos sobre o conhecimento histórico.

– Hayden White, Paul Weyne, Michel de Certeau, Dominick Lacapra, Louis Minck, Frederick Jameson, Lionel Gossmann e Edward Said estudam as relações entre o discurso histórico e o discurso literário da mesma forma que a ficção pós-moderna (a metaficção historiográfica) o faz, através de:

* problematização da forma narrativa
* intertextualidade
* estratégias de representação (mímese)
* funções da linguagem
* relações entre o fato histórico e o acontecimento empírico.
* conseqüências epistemológicas e ontológicas do ato de tornar problemático o que antes era aceito pela história e pela literatura como certeza.


2. Diferenças entre modernismo e pós-modernismo

* O pós-modernismo subverte as convenções realistas através da ironização constante, mas não as rejeita, como o modernismo. A problematização substitui a demolição.

* O pós-modernismo desafia o pressuposto humanista de um eu unificado e de uma consciência integrada.

* O pós-modernismo contesta a noção de originalidade e de autoridade autoral.

* O pós-modernismo não separa estético de político.

Estes paradoxos do movimento o conduzem à ambidestria política: tanto pode ser considerado neoconservador nostálgico e reacionário quanto radicalmente demolidor.


Assim, apesar de seu tom apocalíptico, o pós-modernismo não é uma mudança utópica radical, não propõe nenhuma ruptura. É apenas a cultura desfiando a si mesma de seu próprio interior: desafiada, questionada ou contestada, mas não implodida.

HUTCHEON, L. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Trad. R. Cruz.
Rio de Janeiro: Imago, 1991.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

CARIMBÓ COMO ATO DE RESISTÊNCIA




Sociedade Educacional, Desportiva e Cultural
‘Alto Rio Marapanim
Grupo de Carimbó ‘Tangará da Serra’





Programação
‘Grupo de Carimbó Tangará da Serra’ / 2017-2018

26/12/2017Levantação do Mastro a São Benedito com Roda de Carimbó a partir das 16h da tarde na sede recreativa do Club Independência.
27/12/2017Reunião do Grupo de Carimbó Tangará da Serra.
31/12/2017Jogo de futebol entre solteiros e casados (16h).
# confraternização universal.
04/01/2018Oficina de Carimbó com Músicos do Grupo Tangará da Serra (08h da manhã; local: Sede do Clube de Futebol Independência). .
Oficina de confecção de abanos e paneiros. (Ministrantes: Mestre Cesar e Mestre Vareca, às 14h da tarde; local: Sede do Clube de Futebol Independência).
 - Oficina de confecção de brinquedos feitos com palhas de inajá (Ministrantes: Tia Jóvi e Tia Mariínha; inicio: 16h; local: Sede do Clube de Futebol independência)
- Celebração ecumênica a partir das 19h na igreja da comunidade (Mestre Diego Lobo e Mestre Reinaldo do Vale).
05/01/2018Reunião dos Cantadores da Folia de Reis (preparativos para a esmolação) as 18h (casa da Mestra Vitalina) e Palestra: ‘Carimbó: História e Resistência na região do Alto Rio Marapanim-Pa’, ministrantre Huarley Mateus do Vale Monteiro.
# Folia de Reis.
06/01/2018Festa dançante.
07/01/2018Domingueira de Carimbó e Derrubação do Mastro. (início a partir das 10h da manhã).

Obs.: As inscrições para participação nas oficinas serão feitas no local, momentos antes do início das mesmas.





A coordenação,

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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

CARTA ABERTA À UNESCO EM DEFESA DA PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL E DOS FAZEDORES DE CULTURA ALIMENTAR E AGROECOLOGIA NO ENCONTRO MUNDIAL DAS CIDADES CRIATIVAS

 A conservação das práticas culturais alimentares e agroecológicas, somadas ao respeito à diversidade cultural e aos conhecimentos de mestras e mestres guardiões das culturas populares e tradicionais, se apresentam como salvaguarda da vida neste marco histórico da destruição dos ecossistemas e direitos. E nós – fazedores de cultura alimentar, produtores agroecológicos, cozinheiros, artistas populares, camponeses, pesquisadores, e representantes de organizações, coletivos e movimentos sociais, defensores dos direitos humanos, direitos ambientais, direitos à terra, à cidadania, à cidade, à cultura e soberania alimentar, à acessibilidade, às tecnologias e mídias digitais, à comunicação livre e comunitária, dos direitos de povos indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais, contra os agrotóxicos e transgênicos – fazemos um apelo ao mundo e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) – entidade reunida na Cidade de Belém/PA, junto à Rede Mundial das Cidades Criativas – para que juntos possamos garantir e implementar as políticas públicas e ações integradas construídas com a participação da sociedade civil organizada e representada legitimamente por povos indígenas, povos tradicionais, povos de matriz africana, povos imigrantes, povos de fronteiras, povos periféricos e demais grupos culturais. Pois, vimos se multiplicar no país ações de exceção, de cerceamento e desqualificação da criatividade e largos esforços em negar direitos. E então perguntamos: “Por que nós – movimentos sociais e redes de pequenos agricultores, fazedores de cultura alimentar e agroecologia – fomos apartados da construção dessa reunião internacional das Cidades Criativas da Gastronomia, a ser realizada na Amazônia, se somos nós que alimentamos a Amazônia com mais de 70% da produção de alimentos desde os guardiões de sementes? Por quê? Até mesmo a Rede ODS Brasil – a qual integramos ou nos relacionamos para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU – teve sua participação negada? Quais os critérios de representação?” Ainda no primeiro semestre de 2017, ao tomarmos conhecimento do evento Encontro Mundial das Cidades Criativas – a ser promovido pela Prefeitura de Belém e UNESCO, de 07 a 11 de novembro – buscamos informações junto à Prefeitura, sem sucesso. De nossa parte, sempre nos disponibilizamos para o mais aberto diálogo e mobilização das redes. Fazer e apresentar nossas culturas e cultivares nos traz felicidade! Pelos noticiários, nos deparamos com impostas representatividades apartadas do fazer cultural. Recorremos à Convenção para a Proteção e Promoção das Salvaguardas das Expressões Culturais, que define "Interculturalidade" como a existência e interação equitativa de diversas culturas, assim como à possibilidade de geração de expressões culturais compartilhadas por meio do diálogo e respeito mútuo (Art. 8°). Preocupa-nos esta distância e a acentuada oposição com a Agenda 2030 e demais Protocolos da Organização das Nações Unidas e sua agência UNESCO. Estranha-nos este “esquecimento” durante um evento dessa magnitude, em um estado que sofre acelerada perda de seu patrimônio cultural e diversidade biológica, e figura entre os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH); onde a soberania alimentar, antes garantida pelo consumo dos produtos da floresta e da agricultura camponesa, hoje vê a biodiversidade se tornar monocultivo e sofre pela precoce morte de seus povos tradicionais invadidos por medidas compensatórias e o imperialismo do gosto industrial, entre outras questões que violam diretamente os Protocolos, Convenções e Tratados Internacionais. O extermínio da cultura alimentar é prenúncio da morte de um povo. Nem a Amazônia, nem o Brasil se alimentam das commodities suicidas que distribuem o recorde mundial de consumo de agrotóxicos desde 2009, concentrando terra e renda; bem como contribuindo para recordes de assassinatos de camponeses e mortes de ativistas, alarmantes índices de trabalho escravo e tráfico humano, biopirataria desenfreada, precarização da educação e dos serviços básicos, gentrificação, desterritorialização, e o avassalador preconceito ao alimento originário das roças e matas, em detrimento ao que o Hemisfério Norte descartou à América Latina. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), pela primeira vez na história, a atual e futura geração viverá menos que a anterior. Assusta-nos saber que a mortalidade infantil por doenças crônicas não transmissíveis como a obesidade, as doenças cardíacas e diabetes têm índices epidêmicos devido aos maus hábitos de consumo promovidos ferozmente pelos impérios agroalimentares. Vivemos em uma sociedade que produz sementes que não brotam, que criminaliza alimentos artesanais sadios, que flexibiliza leis sobre agrotóxicos e transgênicos, que provoca a contaminação do leite materno por exposição a venenos agrícolas banidos na Europa e subsidiados no Brasil. A valorização gastronômica seletiva e a subalternização do conhecimento ancestral carregam demasiado preconceito, pois muitas vezes seus guardiões são induzidos a acreditar que o que comem é “imundície”, “coisa do mato”, “fruta besta”... e quando chega a apropriação gastronômica para trocar patrimônio genético por “espelho”, o que se chamava “imundície” passa a ser biodiversidade na mão das corporações e seus garotos propagandas, para fazer Greenwashing, a lavagem verde do dinheiro. É preciso garantir também o direito à cidade, além do acesso aos espaços e equipamentos públicos, na autonomia de pensar e transformar o espaço urbano quanto local de diversidade, encontros e trocas. Lutamos contra a especulação imobiliária; lutamos pela valorização das culturas de periferias; pelo respeito à diversidade de povos na zona urbana; pela água, pela preservação do patrimônio e das áreas verdes. O Brasil viu nestes últimos anos emergir potentes movimentos em defesa da alimentação com importantes avanços, entre eles, o caminhar para a saída do Mapa da Fome, o Programas de Aquisição de Alimentos (PAA), o fortalecimento do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), e do Colegiado Setorial de Cultura Alimentar - CNPC/MINC. Todos com destacadas lideranças femininas. Considerando que a Convenção Nº 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais entrou em vigor no Brasil em 25 de julho de 2003; Considerando que o Decreto Nº 6.040/2007, define os povos e comunidades tradicionais como grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais; Considerando o Tratado Internacional dos Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e Agricultura/FAO (TIRFAA), promulgado pelo Decreto N° 6.476/2008; Considerando que, atualmente, são estabelecidos diálogos intersetoriais com o CONSEA que reconhece a Cultura Alimentar como salvaguarda para Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, com base na Lei Nº 11.346/2006; Considerando que a cultura alimentar passa a compor as metas nacionais 2010-2020 das Metas de Aichi (5-13) como salvaguarda para a proteção e promoção da sociobiodiversidade brasileira; e redução do impacto das mudanças climáticas; Considerando a Convenção da Salvaguarda para o Patrimônio Cultural Imaterial, Artigo 2º, parágrafo 2, sobre a particularidade da manifestação e sua definição; Deste modo, compreendemos que são fazedores de cultura alimentar, cozinheiras e cozinheiros tradicionais, agricultores tradicionais, construtores tradicionais, mestres de navegação, tecedoras, ceramistas e demais artesãos, pajés, griôs, mestres de saberes da terra, mestres de curas, guardiães de sementes, costureiras, carimbozeiros, mestres da cultura popular, e demais fazedores, assim como agricultores, cozinheiros, gastrônomos, culinaristas e nutricionistas em seus fazeres cotidianos e inovadores desde que relativos à cultura. Considerando os direitos, e que a cultura alimentar e a agroecologia são segmentos em exponencial crescimento econômico e avanços científicos; Reivindicamos garantias ao direito à consulta prévia, ampla e informada, pois Acordos Internacionais e Cooperações serão firmados e desconhecemos os teores. Propomos diálogo estreito e propositivo junto às autoridades competentes e secretarias; e a composição por movimentos e representações da sociedade civil organizada no Comitê Cidade Criativa; Reivindicamos políticas públicas e garantias de fomento compatíveis com a realidade local para imediata criação e viabilização operacional de comissões de salvaguarda do patrimônio cultural e bens associados; e de comissões para a salvaguarda das expressões culturais, conhecimento tradicional e patrimônio genético; Reivindicamos a implementação e operação das políticas públicas específicas para cultura alimentar, agroecologia e produção orgânica. Reivindicamos com base na apresentação da cultura originária marajoara representada oficialmente pelo Comitê da Cidade Criativa de Belém, em Denia/Espanha, a construção de protocolo para o banimento do uso de agrotóxicos e proteção da cultura alimentar na Área de Proteção Ambiental do Marajó (APA Marajó), com garantias de fomento e imediata operacionalização para salvaguardar os sítios arqueológicos marajoaras; Reivindicamos a descriminalização das produções artesanais culturais; Reivindicamos políticas para a mulher, respeitada como guardiã da cultura e sociobiodivesidade; Reivindicamos a evolução do insustentável modelo desenvolvimentista para a proposta de Bem Viver! Queremos o Direito Humano à Alimentação Adequada, o comércio justo, condições de trabalho, justiça social, democracia alimentar, e a conservação ambiental. Torcemos para que a Rede das Cidades Criativas da Gastronomia compreenda que para a cidade comer, o campo precisa plantar, a floresta precisa colher, a água estar limpa para o peixe nascer. Sem mestre, o Chef não cozinha. Sem guardiões e guardiãs de culturas populares e tradicionais, não há sementes, não há curas, nem nascentes. Cozinha Criativa é a que valoriza a Cultura Viva! Queremos nossas florestas, povos e juventudes vivas! Queremos nossos quintais alimentares! Queremos hortas urbanas e sementes crioulas! Queremos ver pousar sobre as antigas árvores os velhos pássaros semeadores, para alimentar campos e cidades de esperança, paz e cultura.
Belém, 06 de novembro de 2017.
Assinam esta carta: ANA Amazônia – Articulação Nacional de Agroecologia
Campanha Carimbó Patrimônio Cultural
Comitê Paraense da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida
Eliana Bogea – Advogada, Professora e Ativista Cultural
Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educação (FASE)
Fundo DEMA
Grupo para Consumo Agroecológico (GRUCA)
Instituto EcoVida
Laboratório Global de Justiça Socioambiental (LAJUSA / UFPA)
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Ponto de Cultura Alimentar Iacitatá
Rede ODS Brasil
Sítio Pajuçara
Slow Food Amazônia
Tarcísio Feitosa – Prêmio Goldman Prize
Tatiana Sá – Pesquisadora e Professora em Agroecologia
Huarley Mateus do Vale Monteiro - UERR-UFPA/PPGL

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

‘Mestre Camilo do Vale’: o carimbó em ré menor

“Eu canto este carimbó
Na cantiga de um velho-menino
Maninho eu não canto só
Canto versos do velho Camilo”
(Huarley Vale-Monteiro)

Fazem três meses de tua partida. Não vemos mais teu sorriso moleque, tua alegria nas piadas contadas. Também sentimos falta até de tua teimosia; mas cumpriste teu papel. Deixastes para nós o legado de uma história não contada nos livros de história que circulam nas escolas. Contaste a história de nossa gente através da música, do ritmo, das toadas, de tuas anedotas e causos, como só você sabia co/antar.
velho-menino” é assim que compartilho minha convivência contigo e é dessa maneira que lembramos de sua passagem entre nós. E para que saibam de tua contribuição para as futuras gerações de nossa comunidade, este texto abordará alguns acontecimentos de tua trajetória de vida.


A trajetória de ‘Tio Camilo’, como era conhecido na comunidade de Cristolândia, confunde-se com a história da família Vale na região do Alto Rio Marapanim-Pa e com a própria história do Carimbó neste município.
Aos 29 de dezembro de 1919 nasce Camilo Alves do Vale, filho de Joaquina Coelho e Manoel Monteiro, produtores rurais, moradores da então comunidade do Sêco-Marapanim/Pa que depois de um certo tempo veio a se chamar Cristolândia. Contou-me ele, que ali viveu e iniciou, ainda na infância sua atividade artística. Pai de sete (07) filhos: José Maria, Maria da Conceição, Alberto, Fernando, Maria do Socorro, Haroldo e Raimundo Nonato Alves do Vale.
Quando criança acompanhava os pais frequentadores do Carimbó da ‘Tia Tereza’, antigo terreiro de carimbó de Cristolândia que reunia pessoas de diferentes localidades para as festas em louvor a São Benedito. Cresceu vivenciando as batidas de Carimbó das mãos Raimundo Gaia e Romão de Barros, o som da viola de Matias do Vale e o milheiro tocado por Tio Pirico. Quando os tocadores do Carimbó da Tia Tereza davam uma pausa, ele e as outras crianças pegavam os instrumentos e brincavam de ser cantadores de Carimbó.
Assim Camilo cresceu e seus colegas de infância assumiram, junto com ele, o autêntico Carimbó de tambor de chão que experimentavam nas brincadeiras de crianças. Além de Tio Camilo, que veio a se tornar o Mestre de Carimbó do terreiro da Tia Tereza, também eram dessa época, os batedores de tambor, Raimundo Vale (Raimundo Moquia), Antônio Vale (Saburete) e o violeiro João do Vale (João Parú). Todos eles cresceram ouvindo e frequentando o Carimbó da Tia Tereza e, graças a ela, e aos que com ela conviveram, o Carimbó permanece vivo em Cristolândia.
Conforme o que Camilo falava e as pessoas mais idosas da comunidade confirmam que naquela época não havia instrumentos de sopro, os outros instrumentos eram todos confeccionados artesanalmente pelos próprios músicos. Afirmam ainda que, naquela época não havia conjuntos de carimbó, o que existia eram apenas tocadores e cantadores de Carimbó que se reuniam para festejar e compartilhar suas alegrias ou devoções. Assim, as músicas que surgiam retratavam as relações cotidianas do convívio com a natureza, nas atividades de trabalho, nos desconsolos e angústias da vida, tanto como nos gracejos das paixões que surgiam. E desse convívio muitos namoros e posterior casamentos surgiam.
A exemplo disso era o carimbó organizado por Tia Tereza. O idosos da comunidade, assim como Tio Camilo contava, dizem que ele iniciava no mês de novembro, quando os ensaios aconteciam. Levantava-se o mastro em louvor a São Benedito em 26 de Dezembro e durante dez dias o Carimbó acontecia sem parar; até que no dia seis de janeiro era derrubado o mastro e encerrava-se o período de Carimbó. Apesar da festa ganhar força a partir de novembro, Tia Tereza passava o ano todo se organizando para a festa: criava boi, porcos, galinhas e patos, tudo para servir de alimento para as pessoas durante as festas de carimbó do Santo Preto.
Com o passar dos anos, em respeito a Tia Tereza, a festa só iniciava depois que ela dançasse a primeira música. O ritual consistia da seguinte maneira: ela acompanhava todos os preparativos sentada no seu banco no canto do salão, quando já estava tudo pronto, os cantadores começavam a cantar a música feita para ela. Ela, por sua vez, já sabendo do procedimento, pegava seu bastão, levantava-se e começava a dança pelo salão convidando todos e todas para virem participar de mais um ano de festejos. A música cantada para ela, bem retrata esse momento:

“Um bando de porco saiu na praia
A velha do cacete com a mão na saia
Com a mão na saia.
Com a mão na saia.
A velha do cacete com a mão na saia.”

Tia Tereza faleceu a mais de sessenta anos com 115 anos de idade, deixando uma herança cultural importante para as novas gerações.
Grande parte desse legado foi herdado por Camilo e, segundo o que ele me contou, sua produção artística teve início aos dez anos de idade; mais precisamente em 1929, quando convidado por Mestre Enoque do Vale, integrou o Cordão de Pássaro ‘O Periquito’. De lá pra cá não parou mais de compor e participar de brincadeiras de Bichos e Pássaros. A exemplo disso são: O Tucunaré, A Tilápia, O Surubim, O Papagaio, O Caranguejo e tantos outros que participou e ajudou a compor.
Além dessas brincadeiras foi ele o idealizador e compositor das toadas do Boi-bumbá Misterioso. Foi ainda o criador e Mestre do Conjunto de Carimbó ABC (Cristolândia) e Beija-flôr (Jarandeua). Em 2011 ajudou a resgatar o Carimbó em Cristolândia e junto com Huarley Mateus do Vale Monteiro, Manoel do Vale Monteiro (Manduca), Vitalina do Vale Monteiro, Evandro do Vale Monteiro, Elóy de Sousa (Loló), Cézar do Vale, Doriedsom Do Vale (Bodó), Leonardo Miranda (Léo), Diego Vale e Jairo do Vale criaram o Grupo de Carimbó Tangará da Serra.
Deve ser destacado que no mesmo ano de 2011 Mestre Camilo, Huarley Mateus do Vale, Manduca do Vale, Heitor do Vale e Eloy de Souza reviveram A Folia de Santos Reis que a mais de quarenta anos não se ouvia as ladainhas de Reis na comunidade de Cristolândia. Graças a Mestre Camilo que guardava ainda na memória a ladainha, isso tem sido repassado às crianças e todos os anos a Folia de Reis tem aglomerado mais adeptos naquela comunidade.
É fato que a contribuição de Mestre Camilo para a Cultura popular de Marapanim, e não somente, é indiscutível, porém deve ser registrado que ele inicia sua atuação como Cantador e Compositor de Carimbó em 1934, aos quinze anos de idade. Sendo assim, foram mais de 80 (oitenta) anos cantando Carimbó e fazendo a alegria de nossa gente. Além disso, era contador de histórias, causos e piadas.

 Mestre Camilo, companheiro e amigo próximo de Mestre Lucindo, é mais um dos tantos e tantas que fizeram e fazem do Carimbó um dos motivos de sua existência. Que conciliam a vida sofrida de produtor(a) rural, pescador(a) e cantador(a) de Carimbó. E para que possamos contar as futuras gerações como nossos avós cantavam o Carimbó faz-se necessário o justo reconhecimento dele como um dos grandes nomes herdeiros do autentico Carimbó de Raiz de Marapanim-Pa. Tio Camilo faleceu em 08 de maio de 2017.

sábado, 29 de julho de 2017

Campanha Educativa 2017

 


Reprodução: 
Foto Luiz Cláudio Marigo


Tangará-dançador

(Chiroxiphia caudata)

Família Pipridae


Caracterização

Mede 13 cm, adicionando-se mais 2 cm ao prolongamento das retrizes medianas. O macho é um azul celeste e cauda pretas tendo, no alto da cabeça, uma coroa vermelha brilhante. Na cauda, as duas penas centrais projetam-se além das outras. A fêmea é verde escura, reconhecida por um ligeiro prolongamento da cauda. Os machos imaturos são totalmente verde-oliva, mas alguns jovens podem ser distinguidos das fêmeas devido ao vermelho na fronte, que adquirem antes da troca de plumagem do restante do corpo.

Habitat

Habita as matas densas. Vivem no estrato médio da mata. E também são encontrados à beira de núcleos urbanos do sudeste do país, o que contribui para a sua populariedade.

Distribuição

Pode ser encontrado na Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro até o Rio Grande do Sul. No Estado do Pará, mais precisamente no Nosdeste paraense há grande ocorrência dessa ave principalmente na região do alto rio marapanim.

 

Hábitos

Voam bem, mas usualmente não deixam a mata frondosa, alguns revelam-se verdadeiros acrobatas quando exibem-se nas cerimônias pré-nupciais; os movimentos tornam-se mais ligeiros nos machos, menores e mais leves na fêmea.
Pegam formigas para friccioná-las nas asas e na base da cauda, utilizam as formigas na higiene da plumagem, esfregando os insetos vivos nas asas para gozar o efeito do ácido fórmico, atividade que é tratada como "formicar-se".

Alimentação

Comem bagas, frutas, tiram pequenos pedaços. Apanham pequenos insetos, vermes e aranhas nas folhas.

Reprodução

No período de reprodução, os dançadores machos executam verdadeiras danças diante das fêmeas. Vários enfileiram-se num galho e exibem-se, um de cada vez, diante da fêmea. Depois de executarem o ritual, cada macho vai ao fim da fila e espera a sua vez para exibir-se novamente.
A fêmea tem o seu próprio território ao redor do ninho. Constroem uma cestinha rala que é fixada a uma forquilha, muitas vezes por negros micélios de fungos,  que podem prender o ninho como uma cortina, quebrando o seu contorno e mimetizando-o; utilizam teias de aranhas, em boa qualidade para colar o material da construção a qual muitas vezes está situada a uma altura relativamente grande, perto d'água e até sobre ela.
Põe dois ovos, são de fundo pardacendo com desenho pardo-escuro. A incubação é executada com dedicação pela mãe, é de 18 dias e os filhotes abandonam o ninho em 20 dias, quando começam  a se alimentar e a se defender sozinhos.

Manifestações sonoras

As suas manifestações sonoras cerimoniais é marcada com forte "drüwed". A musiquinha começa num "tiu-tiu", passa para um "trá-trá", com os tangarás voando, fazendo evoluções e pousando nos galhos um junto ao outro, depois que cada um termina a sua parte na dança, que costuma durar de quinze minutos a meia hora.  Após a dança, ou antes dela, o macho às vezes persegue uma fêmea, emitindo uma série de "trrrrs".
A espécie dispõe de um assobio de advertência: "dwüd", dwüod".

Denominação

O termo "tangará" deriva do tupi "ata" - andar, "carã" - em volta; seria equivalente ao "Saltarin" castelhano.

O nome do Grupo de Carimbó de Cristolândia: ‘Tangará da Serra’

O grupo recebe esse nome em homenagem a essa ave, pois há ocorrência da mesma em nossa comunidade. O nome foi  dado por Dona Vitalina, componente do grupo. E isso ocorreu no ano de 2011 não apenas pela belza de plumagem e do canto que a ave tem, mais também pela formação geológica que a comunidade de Cristolândia apresenta: composta de morros e pequenas serras, às margens do Rio Marapanim o que lhes propicia clima agradavel e aconchegante.  Assim também pensa o amigo carimbozeiro Izaac Loureiro:

 

“A Vila de Cristolândia é uma típica comunidade de agricultores, cercada de mata nativa e com um relevo cheio de colinas e pequenos montes que lhe dão um raro clima de montanha. Isso explica o nome escolhido para o grupo de carimbó local: O Tangará da Serra.” (Isaac Loureiro – Campanha do Carimbó 24/07/2014)

 

Bibliografia

 

Helmt Sick, 1988. "Ornitologia Brasileira". 
Marco Antonio de Andrade, 1997. "Aves Silvestres - Minas Gerais".



http://www.faunacps.cnpm.embrapa.br/ave/tangarad.html